Ministério da Saúde confirma chegada da gripe K (H3N2 J.2.4.1) ao Brasil — primeiro caso registrado no Pará; entenda riscos e prevenção
Autoridades confirmam detecção laboratorial de subclado da Influenza A em amostra no Norte do país; circulação até agora está dentro do esperado
O Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso no Brasil de uma nova ramificação genética do vírus Influenza A (H3N2), conhecida popularmente como “gripe K” e oficialmente identificada como subclado J.2.4.1. A amostra foi analisada e registrada no estado do Pará. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) haviam emitido alertas sobre a chegada da temporada de gripes nas Américas.
A confirmação da circulação do subclado J.2.4.1 no território brasileiro não representa motivo para pânico, mas reforça a necessidade de vigilância contínua e adesão às medidas preventivas. O Brasil possui um sistema robusto de vigilância de vírus respiratórios, coordenado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Fiocruz e laboratórios estaduais de referência, que realizam sequenciamento genético de amostras representativas para identificar rapidamente novas variantes.
A detecção no Pará segue o padrão esperado de circulação de vírus influenza no país, que geralmente intensifica durante os meses mais frios, especialmente nas regiões Sul e Sudeste entre maio e agosto. No entanto, a região Norte pode apresentar padrões diferentes de sazonalidade devido ao clima tropical.
O que é a gripe K (J.2.4.1)?
Existem quatro tipos de vírus Influenza (A, B, C e D); os mais comuns em humanos são A e B. Dentro desses grupos há subtipos e subclados; a gripe K é um subclado do subtipo H3N2. Essas variações surgem naturalmente com a evolução viral, o que motiva a atualização anual das vacinas contra a gripe.
A nomenclatura “gripe K” surgiu informalmente na mídia e redes sociais, mas cientificamente a linhagem é identificada como H3N2 J.2.4.1. A letra “K” não possui significado técnico oficial na classificação virológica — que usa combinações alfanuméricas baseadas em características antigênicas e genéticas específicas. O vírus influenza tipo A é classificado com base em duas proteínas de superfície: hemaglutinina (H) e neuraminidase (N).
Existem 18 subtipos de hemaglutinina e 11 de neuraminidase conhecidos, mas apenas alguns combinações circulam regularmente em humanos, principalmente H1N1 e H3N2. As mutações constantes através do processo de “deriva antigênica” (drift) fazem com que novas variantes surjam continuamente, o que explica por que precisamos nos vacinar contra gripe todos os anos — diferentemente de vacinas contra doenças como sarampo, que conferem imunidade duradoura.
Você pode aprofundar seu conhecimento sobre H3N2 com nosso artigo publicado anteriormente.
Gravidade e sintomas
Até o momento não há evidência de que esse subclado provoque casos mais graves do que outros vírus da gripe. Os sintomas relatados são semelhantes aos de uma gripe comum: febre, dor de garganta, mal-estar e coriza. Apesar disso, grupos de risco — idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com comorbidades — devem permanecer atentos.
É importante diferenciar gripe (influenza) de resfriado comum, pois muitas pessoas confundem as duas condições. A gripe causada pelo vírus influenza geralmente tem início abrupto, com febre alta (acima de 38°C), calafrios, dores musculares intensas (mialgia), dor de cabeça, tosse seca e prostração significativa que pode durar vários dias. Já o resfriado comum, causado principalmente por rinovírus, apresenta sintomas mais leves e graduais, com predomínio de coriza, espirros, dor de garganta leve e raramente febre.
A gripe também pode evoluir para complicações graves, especialmente em grupos de risco: pneumonia bacteriana secundária, descompensação de doenças crônicas (asma, diabetes, insuficiência cardíaca), sinusite, otite e, em casos raros, miocardite ou encefalite. Por isso, grupos vulneráveis devem buscar atendimento médico precocemente ao apresentar sintomas gripais.
Eficácia da vacina atual contra o novo subclado
Uma dúvida frequente é se a vacina contra gripe disponível protege contra essa nova variante. A resposta depende da composição da vacina deste ano. A Organização Mundial da Saúde recomenda anualmente quais cepas devem ser incluídas nas vacinas, baseando-se na vigilância global de circulação viral. A vacina trivalente contém proteção contra duas cepas de influenza A (H1N1 e H3N2) e uma cepa de influenza B, enquanto a quadrivalente inclui duas cepas de influenza B.
Mesmo quando há um “mismatch” parcial — ou seja, a cepa vacinal não corresponde exatamente à cepa circulante — a vacinação ainda oferece proteção cruzada significativa e, principalmente, reduz a gravidade dos casos, hospitalizações e mortes. Estudos mostram que pessoas vacinadas que contraem gripe têm evolução clínica mais branda e menor risco de complicações. Por isso, a vacinação continua sendo a estratégia mais eficaz de prevenção, mesmo diante de novas variantes.
O que fazer e recomendações
Autoridades de saúde reforçam a importância da vacinação anual contra a gripe, higiene das mãos e etiqueta respiratória (cobrir boca e nariz ao tossir). Procure atendimento médico se houver falta de ar, febre persistente ou piora rápida dos sintomas. A vigilância epidemiológica seguirá monitorando a circulação viral e atualizando orientações conforme necessário.
Embora alguns países tenham registrado um início precoce da temporada, a circulação do vírus nas Américas está dentro do esperado para a época, segundo a OMS e a Opas.
Além da vacinação, outras medidas preventivas são fundamentais para reduzir a transmissão de vírus respiratórios. A higiene das mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos ou uso de álcool gel 70% é crucial, especialmente após tossir, espirrar, usar transporte público ou tocar superfícies compartilhadas. Evite tocar olhos, nariz e boca com as mãos não higienizadas, pois essas são as principais portas de entrada para vírus respiratórios.
Ao tossir ou espirrar, cubra a boca e nariz com o antebraço ou lenço descartável — nunca com as mãos. Ambientes fechados e mal ventilados facilitam a transmissão; sempre que possível, mantenha janelas abertas e evite aglomerações durante períodos de maior circulação viral. O uso de máscaras faciais, especialmente em ambientes de saúde, transporte público ou quando você apresenta sintomas respiratórios, reduz significativamente a transmissão para outras pessoas. Se você está doente, fique em casa durante os primeiros dias de sintomas, que correspondem ao período de maior contagiosidade.
Tratamento: quando os antivirais fazem diferença
Para a maioria das pessoas saudáveis, a gripe resolve espontaneamente em 5 a 7 dias com tratamento sintomático: repouso, hidratação abundante, analgésicos para febre e dor (paracetamol ou ibuprofeno) e medidas de conforto. No entanto, grupos de risco podem se beneficiar de medicamentos antivirais como o oseltamivir (Tamiflu) ou zanamivir. Esses medicamentos são mais eficazes quando iniciados nas primeiras 48 horas de sintomas, reduzindo a duração da doença em cerca de 1 dia e diminuindo significativamente o risco de complicações graves e hospitalização.
Pessoas com 60 anos ou mais, gestantes, crianças menores de 5 anos, pessoas com doenças crônicas (diabetes, asma, doenças cardíacas, imunossupressão) ou sintomas graves devem procurar atendimento médico rapidamente para avaliar a necessidade de antiviral. O oseltamivir está disponível no SUS para grupos prioritários. Importante: antivirais são diferentes de antibióticos e só funcionam contra vírus; antibióticos são usados apenas se houver infecção bacteriana secundária.
Como funciona a vigilância de gripe no Brasil
O Brasil integra a Rede Global de Vigilância e Resposta à Influenza (GISRS) da OMS, com unidades sentinelas distribuídas estrategicamente pelo território nacional que coletam amostras de pacientes com síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave. Essas amostras são encaminhadas aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen) estaduais e ao Centro Nacional de Influenza da Fiocruz, onde passam por caracterização antigênica e sequenciamento genético.
Esses dados alimentam sistemas de informação nacionais e internacionais, permitindo detectar rapidamente a emergência de novas variantes, avaliar a efetividade das vacinas em uso e orientar decisões sobre composição das vacinas futuras. O monitoramento também rastreia indicadores epidemiológicos como número de casos, hospitalizações, mortes e taxas de positividade por região, gerando boletins periódicos que orientam gestores de saúde e a população sobre a situação atual da circulação viral.
Conclusão
A confirmação da circulação da variante H3N2 J.2.4.1 no Brasil é parte do processo natural de evolução dos vírus influenza e demonstra que nossos sistemas de vigilância estão funcionando adequadamente. Não há motivo para alarme excessivo, mas sim para reforçar práticas preventivas estabelecidas: vacine-se anualmente, mantenha hábitos de higiene, busque atendimento médico precoce se pertencer a grupo de risco e apresentar sintomas, e siga as orientações das autoridades de saúde.
A experiência recente com a pandemia de COVID-19 nos ensinou lições valiosas sobre a importância da vigilância epidemiológica, comunicação transparente e ações preventivas baseadas em ciência. Mantenha-se informado por fontes confiáveis como o Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais de saúde, e evite compartilhar informações não verificadas que possam gerar medo desnecessário. Juntos, com responsabilidade individual e políticas públicas efetivas, podemos enfrentar as temporadas de gripe minimizando seu impacto na saúde da população.
Para mais informações visite o site do Ministério da Saúde.
Referências
[1] Ministério da Saúde (Brasil). Informe Epidemiológico Influenza: Semana Epidemiológica 01/2025. Brasília: Secretaria de Vigilância em Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/i/influenza
[2] World Health Organization (WHO). Influenza (Seasonal). Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/influenza-(seasonal)
[3] Pan American Health Organization (PAHO). Influenza and other respiratory viruses: Epidemiological Update, January 2025. Washington: PAHO, 2025. Disponível em: https://www.paho.org/en/topics/influenza-and-other-respiratory-viruses
[4] European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Influenza virus characterisation: Summary Europe, December 2024. Stockholm: ECDC, 2024. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/seasonal-influenza/surveillance-and-disease-data/influenza-virus-characterisation
[5] Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Influenza (Flu): Types of Influenza Viruses. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: https://www.cdc.gov/flu/about/viruses/types.htm
[6] World Health Organization (WHO). Recommended composition of influenza virus vaccines for use in the 2025 southern hemisphere influenza season. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/publications/m/item/recommended-composition-of-influenza-virus-vaccines
[7] Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Centro Nacional de Influenza: Vigilância de Vírus Respiratórios. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2024. Disponível em: https://www.fiocruz.br/
[8] Uyeki TM, Bernstein HH, Bradley JS, et al. Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America: 2018 Update on Diagnosis, Treatment, Chemoprophylaxis, and Institutional Outbreak Management of Seasonal Influenza. Clin Infect Dis. 2019;68(6):e1-e47. doi:10.1093/cid/ciy866
[9] Dobson J, Whitley RJ, Pocock S, Monto AS. Oseltamivir treatment for influenza in adults: a meta-analysis of randomised controlled trials. Lancet. 2015;385(9979):1729-1737. doi:10.1016/S0140-6736(14)62449-1
[10] Grohskopf LA, Blanton LH, Ferdinands JM, et al. Prevention and Control of Seasonal Influenza with Vaccines: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices – United States, 2024-25 Influenza Season. MMWR Recomm Rep. 2024;73(5):1-25.
[11] Belongia EA, Simpson MD, King JP, et al. Variable influenza vaccine effectiveness by subtype: a systematic review and meta-analysis of test-negative design studies. Lancet Infect Dis. 2016;16(8):942-951. doi:10.1016/S1473-3099(16)00129-8
[12] Paget J, Spreeuwenberg P, Charu V, et al. Global mortality associated with seasonal influenza epidemics: New burden estimates and predictors from the GLaMOR Project. J Glob Health. 2019;9(2):020421. doi:10.7189/jogh.09.020421
[13] Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Guia de Imunização SBIm 2024/2025. São Paulo: SBIm, 2024. Disponível em: https://sbim.org.br/
[14] Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo de Tratamento de Influenza 2023. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/i/influenza/publicacoes
[15] Shu Y, McCauley J. GISAID: Global initiative on sharing all influenza data – from vision to reality. Euro Surveill. 2017;22(13):30494. doi:10.2807/1560-7917.ES.2017.22.13.30494
[16] Jefferson T, Jones MA, Doshi P, et al. Neuraminidase inhibitors for preventing and treating influenza in adults and children. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(4):CD008965. doi:10.1002/14651858.CD008965.pub4
