5 mitos de saúde que a ciência já derrubou — pare de acreditar neles hoje
Do consumo de água às diets milagrosas: explicamos por que esses mitos persistem e o que a evidência científica recomenda na prática.
Mitos sobre saúde se espalham rápido — por redes sociais, familiares ou por tradições antigas. Alguns chegam a moldar comportamentos diários, apesar de já terem sido investigados e refutados por estudos. Abaixo, 5 mitos de saúde comuns serão desmontados com explicações claras e recomendações práticas para o dia a dia.
A disseminação de mitos de saúde não é fenômeno novo, mas a era digital amplificou exponencialmente sua velocidade e alcance. Um estudo publicado na revista Science mostrou que notícias falsas se espalham 70% mais rápido que informações verdadeiras nas redes sociais, e conteúdos relacionados à saúde estão entre os mais compartilhados.
Essa propagação rápida cria um paradoxo: nunca tivemos tanto acesso a informação científica de qualidade, mas também nunca foi tão fácil ser enganado por desinformação convincente. Mitos de saúde persistem por várias razões: simplicidade memorável (regras fáceis são mais atraentes que nuances), viés de confirmação (tendemos a buscar informações que confirmam crenças existentes), apelo emocional (histórias pessoais impressionam mais que estatísticas) e desconfiança em instituições científicas. Compreender esses mecanismos psicológicos nos ajuda a desenvolver pensamento crítico e resistir a afirmações infundadas.
Mito 1 — “Você precisa beber 8 copos de água por dia”
Origem: a regra dos 8 copos (ou 2 litros) virou um guia simples, mas rígido. A verdade: a necessidade de líquidos varia conforme idade, sexo, clima, atividade física e alimentos consumidos. Frutas, sopas e outros alimentos trazem contribuição hídrica.
O que a ciência diz: estudos mostram ampla variação individual na ingestão adequada de líquidos. O sinal mais confiável é a sensação de sede e a cor da urina (clara indica boa hidratação). Excesso de água em curto período pode ser perigoso em situações raras.
Na prática: beba quando estiver com sede, ajuste a ingestão ao nível de atividade e clima, e inclua alimentos ricos em água na dieta.
Um estudo publicado no British Medical Journal analisou a origem do mito dos 8 copos e concluiu que provavelmente surgiu de uma interpretação equivocada de recomendações nutricionais de 1945, que mencionavam cerca de 2,5 litros de água total — mas incluindo a água presente nos alimentos, não apenas bebidas.
A National Academies of Sciences estabelece ingestões adequadas de cerca de 3,7 litros totais para homens e 2,7 litros para mulheres, mas reforça que aproximadamente 20% dessa quantidade vem de alimentos. Atletas, pessoas em climas quentes, gestantes e lactantes precisam de mais líquidos. Importante: condições médicas como insuficiência cardíaca ou doença renal podem exigir restrição hídrica — nesses casos, siga orientação médica rigorosamente.
A hiponatremia (intoxicação por água) é rara mas grave, ocorrendo quando consumo excessivo de água dilui o sódio sanguíneo, podendo causar confusão mental, convulsões e até morte. Maratonistas e pessoas que bebem água compulsivamente durante exercícios intensos estão em maior risco.
Mito 2 — “Comer ovos aumenta muito o colesterol e causa doenças cardíacas” (e Mito 3 — “Açúcar causa hiperatividade em crianças”)
Ovos: historicamente, a gema foi vista como vilã pelo seu teor de colesterol. Pesquisas mais recentes mostram que, em pessoas saudáveis, o consumo moderado de ovos tem impacto pequeno e variável nos níveis de colesterol sérico e não é claramente associado a maior risco cardíaco em populações gerais.
Açúcar e hiperatividade: múltiplos estudos controlados não encontraram ligação consistente entre açúcar e hiperatividade em crianças. A percepção de agitação costuma estar ligada ao contexto (festas, excitação) e não ao açúcar isoladamente.
Na prática: moderar ovos e açúcares faz sentido por motivos gerais de nutrição (controle calórico, qualidade da dieta), mas evitar exageros é mais importante do que proibições rígidas. Para crianças, mantenha rotina e sono adequados antes de culpar o açúcar por qualquer comportamento.
A mudança de compreensão sobre ovos ilustra bem como a ciência evolui. Por décadas, diretrizes recomendavam limitar ovos a 2-3 por semana devido ao colesterol dietético. No entanto, pesquisas mais recentes, incluindo grandes estudos de coorte como o Nurses’ Health Study e o Health Professionals Follow-up Study, mostraram que o colesterol dietético tem impacto muito menor no colesterol sanguíneo do que se pensava — o que mais afeta são gorduras saturadas e trans.
Para a maioria das pessoas saudáveis, consumir até 1 ovo por dia não aumenta risco cardiovascular. Exceções incluem pessoas com diabetes, nas quais alguns estudos sugerem maior cautela, e indivíduos com hipercolesterolemia familiar ou hiperresponsividade ao colesterol dietético.
Os ovos são alimentos nutritivos, ricos em proteínas de alto valor biológico, colina (importante para cérebro), luteína e zeaxantina (saúde ocular) e vitaminas B12 e D. O contexto alimentar importa: ovos fritos em óleo vegetal parcialmente hidrogenado com bacon e pão branco têm impacto diferente de ovos cozidos com vegetais e grãos integrais.
Mito 3 — Açúcar causa hiperatividade em crianças
Origem: muitos pais e professores acreditam que açúcar deixa crianças hiperativas ou agitadas, especialmente após festas.
O que a ciência diz: múltiplos estudos controlados não encontraram ligação consistente entre açúcar e hiperatividade em crianças. A percepção de agitação costuma estar ligada ao contexto (festas, excitação do ambiente) e não ao açúcar isoladamente.
Na prática: moderar açúcar faz sentido por outros motivos de saúde (obesidade, cáries, qualidade nutricional), mas não porque causa hiperatividade. Para crianças agitadas, avalie sono, rotina e ambiente antes de culpar o açúcar.
Embora açúcar não cause hiperatividade diretamente, isso não significa que seu consumo excessivo seja inócuo. O açúcar adicionado está associado a obesidade infantil, cáries dentárias, resistência à insulina e estabelecimento de preferências por sabores muito doces que dificultam aceitação de alimentos saudáveis.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que açúcares livres (adicionados aos alimentos ou naturalmente presentes em mel, xaropes e sucos de frutas) representem menos de 10% da ingestão energética total, idealmente menos de 5%.
Para uma criança que consome 1.500 kcal/dia, isso equivale a no máximo 37,5g de açúcar adicionado (cerca de 9 colheres de chá) — facilmente ultrapassado com refrigerantes, sucos industrializados, bolachas recheadas e cereais matinais açucarados.
A indústria alimentícia utiliza mais de 60 nomes diferentes para açúcares adicionados nos rótulos (xarope de milho, maltodextrina, dextrose, sacarose, etc.), dificultando identificação pelos consumidores. Ensine crianças a apreciar sabores naturais de frutas e a reconhecer fome real versus desejo por doces.
Mito 4 — “Dietas detox e sucos limpam o corpo de toxinas”
Origem: promessas de desintoxicação rápida por jejum, sucos ou suplementos são populares. A realidade: fígado, rins, pulmões e pele já realizam processos de eliminação de substâncias indesejadas de forma contínua.
O que a ciência diz: não há evidência confiável de que dietas detox removam “toxinas” de forma superior ao funcionamento natural do organismo. Muitos planos restritivos podem causar deficiências nutricionais, perda de massa magra e efeito ioiô.
Na prática: priorize alimentação balanceada, hidratação adequada e avaliação médica se houver suspeita de intoxicação ou problema hepático/renal. Evite regimes muito restritivos sem acompanhamento profissional.
O marketing de “detox” movimenta bilhões de dólares globalmente, explorando ansiedades sobre poluição, alimentação moderna e saúde. Produtos vendidos como detoxificantes incluem chás, suplementos, sucos prensados a frio, patches para os pés, banhos de argila e até clisteres de café. Nenhum desses métodos tem comprovação científica robusta.
Um estudo conduzido pela organização britânica Sense About Science convidou fabricantes de produtos detox a fornecer evidências de eficácia e não conseguiu obter respostas satisfatórias.
O corpo humano possui sistemas sofisticados de detoxificação: o fígado metaboliza substâncias através de enzimas especializadas (fases I e II de biotransformação), os rins filtram o sangue e eliminam resíduos pela urina, os pulmões expelem CO2, o sistema linfático remove toxinas, e o intestino tem papel importante na eliminação.
Esses sistemas funcionam continuamente, 24 horas por dia, sem necessidade de “resets” ou jejuns especiais. O que realmente prejudica a capacidade de detoxificação natural é: consumo excessivo de álcool (sobrecarrega o fígado), tabagismo, exposição ocupacional a químicos tóxicos, medicamentos hepatotóxicos e doenças hepáticas ou renais.
Se você quer apoiar seus órgãos de detoxificação, faça isso com: hidratação adequada, dieta rica em fibras (ajuda eliminação intestinal), vegetais crucíferos (brócolis, couve-flor, que contêm compostos que suportam enzimas hepáticas), atividade física regular (melhora circulação e função linfática) e moderação no álcool.
Mito 5 — “Frio causa resfriado”
Confusão comum: muita gente associa tempo frio ao surgimento de resfriados. Na verdade, resfriados são causados por vírus (como rinovírus) e não diretamente pela temperatura.
Por que há correlação: em meses frios, as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados e ventilação reduzida facilita a transmissão viral. Além disso, ar frio e seco pode afetar defesas nas vias aéreas, aumentando a suscetibilidade aos vírus.
Na prática: proteger-se inclui higiene das mãos, evitar contato próximo com pessoas doentes e ventilação adequada de ambientes. Agasalhar-se previne desconforto e complicações associadas ao frio, mas não é remédio contra vírus.
Um estudo clássico publicado no New England Journal of Medicine colocou voluntários em duas situações: exposição ao frio seguida de inoculação com rinovírus, versus ambiente confortável seguido de inoculação. Não houve diferença significativa nas taxas de infecção, confirmando que o frio por si só não causa resfriados.
Entretanto, pesquisas mais recentes sugerem mecanismos indiretos: o ar frio pode reduzir a eficiência dos cílios das vias respiratórias (estruturas que ajudam a expulsar patógenos), e baixas temperaturas podem afetar a resposta imunológica local no nariz.
Um estudo de 2015 na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) mostrou que o rinovírus se replica melhor em temperaturas ligeiramente abaixo da temperatura corporal central (33°C vs 37°C), e que células expostas a temperaturas mais baixas produzem resposta antiviral menos robusta.
Isso pode explicar por que o vírus prefere colonizar o nariz (mais frio) em vez dos pulmões (mais quente). Portanto, embora o frio não “cause” resfriado, pode facilitar infecções virais. A melhor prevenção continua sendo: lavar as mãos frequentemente, evitar tocar o rosto, manter ambientes bem ventilados mesmo no inverno, e considerar vacinação contra gripe quando disponível (embora não proteja contra resfriados comuns).
Outros mitos comuns que merecem atenção
Além dos cinco mitos principais, vale mencionar brevemente outros equívocos frequentes: “Ler com pouca luz estraga a visão” (causa fadiga ocular temporária, mas não dano permanente); “Usar celular antes de dormir só prejudica se estiver muito perto” (a luz azul afeta o sono independentemente da distância, o que importa é a exposição); “Você perde a maior parte do calor corporal pela cabeça” (perde proporcionalmente à área exposta — a cabeça não tem propriedade especial); “Cracking dos dedos causa artrite” (não há evidência, embora possa irritar articulações com o tempo); “Comer à noite engorda mais do que comer de dia” (o que importa é o total calórico e qualidade alimentar ao longo de 24h, não o horário específico, embora comer muito tarde possa afetar qualidade do sono); e “Chocolate causa acne” (estudos mostram correlação fraca; fatores hormonais, genéticos e higiene da pele são mais importantes). Cada um desses mitos tem raiz em observações parciais ou interpretações equivocadas de estudos, mas foram amplificados por repetição cultural.
Considerações Finais: Como desenvolver pensamento crítico em saúde
Proteger-se de mitos de saúde exige desenvolver “alfabetização em saúde” (health literacy) — capacidade de encontrar, compreender e usar informações de saúde para tomar decisões informadas.
Estratégias práticas incluem: (1) Desconfie de afirmações absolutas e soluções milagrosas — a ciência trabalha com probabilidades e nuances, não certezas absolutas; (2) Verifique a fonte — informações de instituições reconhecidas (OMS, Ministério da Saúde, sociedades médicas) são mais confiáveis que posts anônimos; (3) Busque evidências, não anedotas — “funcionou comigo” não é evidência científica; estudos controlados com muitos participantes são mais confiáveis; (4) Atenção ao viés de conflito de interesse — quem está divulgando a informação lucra com ela?; (5) Consulte profissionais qualificados — médicos, nutricionistas e outros profissionais de saúde têm treinamento para interpretar evidências; (6) Reconheça que a ciência evolui — o que era verdade há 20 anos pode ter sido refinado ou corrigido por pesquisas mais recentes; (7) Cuidado com falácias lógicas — correlação não implica causalidade, apelo à natureza não garante segurança, e tradições antigas não são automaticamente superiores.
Sua saúde é importante demais para ser guiada por mitos e modismos. Invista tempo em educação em saúde baseada em evidências — esse conhecimento protegerá você e sua família por toda a vida.
Dica rápida: antes de seguir uma recomendação que parece radical (detox, dietas muito restritivas, proibições alimentares rígidas), procure fontes científicas ou um profissional de saúde para avaliar riscos e benefícios. Foque numa vida mais saudável. Para apoio, consulte nosso artigo sobre hábitos de prevenção para você começar hoje.
Referências
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